amores expresos, blog do DANIEL

Thursday, November 19, 2009

A compreensão do Universo

É de mister esclarecer: este é o blog que mantive em abril/maio de 2007 em Buenos Aires durante viagem do projeto Amores Exressos, que resultou no meu romance 'Cordilheira' (Companhia das Letras, 2008). Este blog foi encerrado com o término da viagem. Este não é meu blog oficial. Eu não tenho um blog oficial. Não tenho blog de nenhum tipo. Meu último blog pessoal foi o 'Ranchocarne', assassinado por seu criador em 2007. Atualmente, tenho uma página pessoal (Geocities vive, tag blink vive) em: http://ranchocarne.org -- Obrigado pela visita, e segue o baile.

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Friday, May 18, 2007

De volta

Já de volta a São Paulo, ruminando fotos e memórias. Tenho uma história rabiscada na mente. Acho que ela poderia se passar em qualquer lugar, mas se passará em Buenos Aires, uma cidade de carnes tenras, mulheres elegantes e ruas planas que mimam os andarilhos com cafés e livrarias inesgotáveis. Buenos Aires mudou um pouco a minha vida, nem tanto por suas próprias características, mas por ter me acolhido num breve exílio que me permitiu enxergar certas coisas com mais clareza. Nesse sentido, toda a idéia desse projeto se legitima: nada melhor para um escritor (ou pelo menos para UM escritor, ou seja, eu) do que ter a oportunidade de tomar um pouco de distância de tudo que o precedeu até então. O que chamamos de inspiração tem muito a ver com conseguir estranhar a vida por um instante - não mais reconhecê-la e, apavorado, ter de lidar com isso. Escrevo porque a literatura é minha maneira de expressar esse estranhamento. Eu poderia guardá-lo, mas não consigo. O estranhamento alheio pode ser pertinente ou impertinente. Meu desafio é tornar o meu o mais pertinente possível para o leitor - e isso, meus caros, é um processo violento que recusa qualquer idealização. Não ter conseguido evitar a literatura quando ainda era tempo explica uma boa parte do sofrimento que conheço hoje em dia. Há sofrimentos muito piores. Me considero feliz porque sei que escolhi bem. Hoje entendo muito melhor uma frase de Bataille que usamos em 2001 para apresentar o selo editorial Livros do Mal ao mundo: "A literatura não é inocente, e, culpada, ela enfim deveria se confessar como tal." Eu confesso. Confesso tudo. Sou culpado e, nos próximos meses, tentarei redigir mais um capítulo dessa confissão.

Esse é o último post desse blog. Despeço-me com um álbum de fotos.

Abraços aos que acompanharam esses relatos,

DG

Diário porteño 4: Hermanos Tricolores

(esse texto foi publicado originalmente no site Impedimento, que trata do único futebol que importa, o latino-americano)

Éramos sete: eu, Leonardo e Cléber na facção dos brasileiros; Juanjo, Diego "Lion", Miguel e Pablo representando os porteños. Nosso destino: o estádio Tres de Febrero, no bairro Jose Ingeniero, na província, a 40 minutos de ônibus do bairro Almagro. Fomos assistir à partida Almagro vs Defensa e Justicia, no dia 10 de maio.

Quando cheguei em Buenos Aires, descobri que o Grêmio tinha um time "irmão" por aqui. Não entendi muito bem o que isso significava, mas quando o Leonardo me mandou uma foto de uma pichação onde os escudos de Grêmio e Almagro apareciam juntos, percebi que a coisa era séria. A camiseta tricolor dos dois times é praticamente idêntica. Por isso, aceitei na hora a proposta de irmos ao estádio ver o Almagro jogar, tendo como guia o bem-humorado Juanjo, um sujeito alegre de quarenta anos e espírito de vinte que assim que me viu me entregou um punhado de adesivos tricolores onde se lê: "GREMIO-ALMAGRO / Hermanos Tricolores / Una Pasion Sin Fronteras".

Depois de ficarmos umas duas horas bebendo Isenbeck litrão e comendo panchos num boteco da Av. Córdoba, pegamos o 146 e viajamos 40 minutos até a província, bebendo Coca-Cola com Fernet misturados em garrafas pet. O Tres de Febrero fica muito longe da sede do clube (que fica no próprio bairro central de Almagro) porque quando eles foram construir seu estádio não havia mais espaço nenhum à disposição na cidade.

Num frio de rachar, em meio a uma paisagem urbana que poderia ser Canoas, descemos numa praça meio abandonada onde há uma estátua de uma vênus pintada de tricolor (toda semana a prefeitura limpa e toda semana eles pintam de novo, há anos, e será assim até o fim dos tempos). O estádio é pequeno, a lotação não chega a 20 mil, e nessa noite ele estava bem vazio, talvez porque mesmo com uma vitória a chance do time no campeonato da segunda divisão argentina era quase nula.

Chegamos 15 minutos atrasados. As torcidas se concentravam atrás das goleiras, com as arquibancadas laterais quase desocupadas. O Defensa e Justicia tem uniforme verde e amarelo. Sentado no muro da arquibancada do Almagro, um torcedor vestia nos ombros uma bandeira do adversário enquanto sacudia outra bandeira do próprio time, provavelmente ostentando o troféu de alguma briga ocorrida antes da partida.

No instante em que saquei minha câmera, fui alertado pelo Diego para guardá-la o quanto antes. Parte da torcida é barra-pesada e eu poderia perder a câmera de maneira desagradável. O jogo foi horrível e o Almagro, que segundo os torcedores tinha jogado bem e vencido as últimas quatro partidas, perdeu de 1 a 0 numa partida pegada e violenta em que um dos atacantes do D&J usava um capacete de rugby. Não tinha bebida pra vender no estádio - a selvageria costuma comer solta antes e depois do jogo, e vender álcool nas imediações seria incitar o genocídio. A torcida do Almagro cantou seus hinos durante quase toda a partida, não de forma ininterrupta, mas com uma freqüência que fazia uma média entre o mau desempenho do time e a necessidade de rebater os gritos da torcida adversária. Detalhe que eu não sabia: em vez de vaiar, o argentino assobia. Gritar "UUHH" aqui não faz sentido algum. No final, mesmo com a derrota, todos, sem exceção, aplaudiram o time.

É incrível como os torcedores do Almagro veneram o Grêmio e se consideram irmãos. Vários torcedores estavam com camisa do Grêmio (as camisas são de fato idênticas, com exceção da mais recente do Almagro, que mudou o azul celeste para um azul mais escuro e pôs números amarelos, o que meio que cagou tudo) e alguns me disseram possuir 4 ou 5 camisas do tricolor gaúcho em casa. Miguel, que estava conosco, usava uma camisa do Almagro e uma jaqueta do Grêmio. Eles sabem tudo sobre o Grêmio e há várias pichações nos arredores do estádio com os escudos dos dois times e frases como "paixão sem fronteiras". Alguns dos torcedores com quem falei já foram a Porto Alegre assistir partidas do Grêmio. O desprezo pelo Inter e pelos bâmbis também é exatamente o mesmo. Alguns tinham a noção equivocada de que Grêmio e Palmeiras também eram times mais ou menos "irmãos". Eu e o Leonardo tratamos de desfazer esse engano com veemência, evocando a rivalidade dos anos 90.

pic.jpg

A saída do jogo foi tranqüila. Na chegada, nossos amigos argentinos queriam nos levar para ver uma das pichações que reúnem os dois times, mas como estávamos atrasados a idéia foi cancelada. Na saída, comecei a estranhar quando percebi que o caminho de volta até a parada de ôninus era diferente. Caminhamos umas 8 quadras por uma vizinhança cada vez mais deserta e ameaçadora. Quando estava prestes a perguntar qual era nosso destino, tudo ficou claro: tínhamos ido até um muro enorme em que os escudos do Almagro e do Grêmio se confundiam em meio a faixas de tinta tricolores e frases celebrando a identificação dos dois times. Estávamos a duas quadras do Forte Apache, a favela de onde saiu o Tevez e onde a polícia nunca entra. Era 1h da manhã. O fato de eu estar vivo comprova que o conceito de estatística é uma farsa.

Eu e o Leonardo precisávamos acordar cedo e queríamos ir embora, mas o entusiasmo e a hospitalidade dos porteños não permite negativas. Recusar uma cerveja pós-jogo é "mala onda". Depois de atravessar a Ciudadela a pé e cruzar a Av. General Paz, entramos no bar Sammy, onde samambaias e néons multicoloridos se somavam a uma televisão que mostrava a partida entre Nacional e Necaxa pela Libertadores. As Heinekens litrão saíam tinindo da geladeira e eram despejadas em canecos que pareciam ter sido conservados a 1km de profundidade no gelo Antárctico. Entramos noite adentro, é claro.

A sensação final dessa experiência é de injustiça: por que os gremistas não conhecem o Almagro? Não sei bem a origem dessa identificação tão forte, mas sei que os torcedores deles torcem para o Grêmio com paixão legítima, como se os dois times fossem dois batalhões numa mesma frente - um menor e mais modesto (ainda assim, é o time de segunda divisão argentina que mais vezes subiu à primeira), o outro maior e mais famoso. É injusto que os gremistas não retribuam essa amizade. Na próxima vez em que você for a um jogo do Grêmio, olhe com cuidado ao redor. Pode ser que você encontre alguém com uma camisa do Almagro, quase idêntica à nossa. De minha parte, já comprei a jaqueta oficial de nossos irmãos porteños. Se eu encontrar um torcedor do Almagro no Brasil, quero que saiba que estive em seu estádio e torci pelo seu time.

Thursday, May 10, 2007

Diário porteño 3: Dois vídeos e três fotos

Olá. Ainda estou aqui. Deixei definitivamente de ser um turista. Cheguei em tal ponto de entrosamento com a cidade que a idéia de ir embora já me dá uma certa ansiedade. Até parei de pensar no livro. Não sinto que estou aqui para escrever. Estou aqui, é só. Meu bloquinho está forrado de anotações, e agora quero me dedicar a esquecer do motivo que me trouxe para cá. Tenho certeza de que esses próximos dias serão importantes para assentar as memórias e arquivá-las adequadamente.

Os destaques da semana que passou foram duas experiências musicais: a primeira foi uma noite num boteco chamado El Boliche de Roberto. Não está em nenhum guia turístico e é bom que seja assim. Cabem 30 pessoas lá dentro e toda noite de quinta surgem cantores e músicos de tango que cultivam a tradição com amor e desprendimento. O lugar fica em Almagro, que junto com Abasto me parecem ser os dois barros onde o tango segue sendo praticado sem modernizações extremas nem polimento turístico. Caminhando por essas ruas no fim do dia, é comum espiar por uma janela entreberta de uma casa antiga sem qualquer espécie de identificação externa e ver pessoas tendo aulas de tango. No El de Roberto, no instante em que um acorde de violão soa os clientes fazem o mais absoluto silêncio. Não é música ambiente nem espetáculo. Está mais para uma reverência ao passado da cidade.

Dois dias depois, fui ao show do Motorhead no Luna Park. Estava preparado para enfrentar a lendária selvageria dos fãs de metal porteños, mas o clima foi de total tranqüilidade. Nem revistam as pessoas na entrada. Eu poderia ter entrado com uma cimitarra ou um maçarico escondido no casaco e ninguém me impediria. Lemmy está velhinho e o show foi um pouco burocrático, mas ainda assim extremamente alto e pesado. Nada pode ser mais distinto do tango do que um show do Motorhead, no entanto havia ali o mesmo tipo de reverência.

Agora, dois vídeos e três fotinhos:

Primeiro, a vista de cair o queixo que tive no cume do Cerro Medio, a montanha de Ushuaia que subi a pé com um grupo de trekkers:



Segundo, uma cantora se apresentando no El de Roberto:



Um gato muito à vontade no Jardim Botânico de Buenos Aires. Os gatos ocupam com total tranqüilidade quase todas as áreas públicas da cidade - parques e cemitérios em especial. Circulam como se nada pudesse ameaçá-los e recebem carinho das pessoas como cães mimados:


Uma estátua particularmente fascinante num túmulo do cemitério da Recoleta:


Além de ser um clone do Borges, esse sujeito (ele se chama Carlos) é um fóssil vivo do tango e de vez em quando aparece para cantar no El de Roberto. Tudo, desde a voz até a linguagem corporal, parece surgir de décadas passadas. Ele tem em casa um violão que pertenceu a Gardel. Os dois sujeitos que estão tocando atrás dele são virtuoses. Tocam em perfeita harmonia, e o som que os três produziram juntos nessa noite parecia sair de um velho LP garimpado num sebo de San Telmo:

Sunday, April 29, 2007

Diário porteño 2 : edição especial Ushuaia

Alou,

Bom, passou bastante tempo desde o último e-mail que mandei, então alguns dias em Buenos Aires serão descritos resumidamente: choveu muito. Com isso, fiz menos passeios e fiquei mais bundando pela cidade, o que também foi ótimo, porque só assim, sem saber muito bem o que fazer e com um pouco de tédio, a gente se sente um pouco morando na cidade, em vez de fazendo turismo. Caminhei por recantos ainda desconhecidos de Palermo (o bairro é gigante), testei restaurantes e fui ao Jardim Botânico, que é um lugar muito legal. O parque é pequeno, mas bonito e muito bem cuidado, e fica no meio de uma zona movimentada da cidade, ao lado da Plaza Italia, de modo que não parece um recanto destacado do resto e sim uma parte da cidade, com avenidas passando perto. Essa integração ao urbano contribui pro clima do lugar, e isso se soma ao fato de que ele fica cheio de pessoas lendo, namorando, lendo, tirando fotos, lendo, estudando, lendo. Além disso, é infestado de gatos. São dezenas ou, arrisco dizer, centenas deles que ficam zanzando ou dormindo ao sol, como se fossem endêmicos do lugar. Não fogem das pessoas, como se fossem cachorros. Também dei umas bandas à noite com o Leonardo e conheci melhor a turma da Interzona, editora que vai publicar o Mãos de Cavalo aqui - fizemos uma jantinha na casa do Liniers, o quadrinista jovem mais famoso da Argentina. A biblioteca do cara é incrível, quase todos os livros são hardcover, coisa de museu.

Bom. Isso resume uns 4 ou 5 dias de Buenos Aires. Depois disso fui pra Ushuaia. A cidade se autodenomina O Fim do Mundo e fica lá na pontinha da Terra do Fogo. É a cidade mais austral da América. A umas 4 horas de avião de Buenos Aires. Sempre idealizei esse lugar como um dos pontos do planeta que gostaria de conhecer um dia, e bem, lá estava eu. Quando o avião sobrevoou a pontinha da Cordilheira dos Andes eu já soube que ia ser um choque. A vista aérea de picos nevados é hipnotizante. Pousamos ao fim da tarde a a visão foi linda. A cidade tem 50 mil habitantes e fica à margem do Canal Beagle. Há um porto, depois um aclive sobre o qual a cidade se esparrama, com casinhas simples, nada com mais de 3 andares. Num certo ponto do aclive as casas somem e começam os bosques marrom-avermelhados salpicados de neve. E mais acima surgem as montanhas nevadas que cercam toda a baía. É lindíssimo.

Logo de cara dá pra sacar que essa coisa de Fim do Mundo é uma grande sacada turística (que deve ter origem mais ou menos legítima, já que a cidade foi criada pelos argentinos para marcar território na disputa da Terra do Fogo com os chilenos e para ser uma colônia penal da qual era impossível fugir devido às condições naturais grotescas). Em algum momento, Ushuaia foi mesmo o fim do mundo, mas hoje é uma cidadezinha de interior pacata com toda a infra para turistas. Há DOIS pubs irlandeses, uma dúzia de locutórios com internet, dezenas de restaurantes de bom nível, hotéis e albergues a dar com o pau, meia dúzia de agências turísticas. Nada disso tira o impacto da paisagem e a sensação de estar num lugar remoto, mas ao mesmo tempo... lá estão as MESMAS coisas que se encontra em qualquer lugar que turistas gostam de visitar.

Em termos culinários, além das obrigatórias parrillas (com cordeiros inteiros assando no fogo nas vitrines dos restaurantes), o destaque é a centolla ou caranguejo-aranha ou sei lá como se chama esse monstro em português. É um caranguejo gigante e espinhento com pernas de uns 40cm que parece um siri que passou milhões de anos evoluindo no inferno. O gosto não é muito diferente de caranguejo, mas eles adoram e consideram uma atração local. É muito bom, mas de uma perspectiva gourmet não tem nada especial. Mais legal é VER o bicho nos aquários dos restaurantes. Pesadelos pra várias noites.

Outro destaque é a cerveja BEAGLE, uma cerveja artesanal local absurdamente boa. Tomei as três variedades: "rúbia", "roja" e "negra". A primeira é clara e meio adocicada e tem cheiro de pão embolorado, o que, pensando bem, atesta a qualidade incomparável da bebida. A segunda é vermelha, meio amarga e tem um sabor simplesmente estupendo, nada se compara. A terceira é uma Guinness melhorada. E tenho dito.

Cheguei na quarta-feira. Quinta, peguei a excursão mais padrão de Ushuaia, que é o circuito Trem do Fim do Mundo + Parque Nacional. O trem é famoso e faz a gente pensar em algo muito perigoso e desolado. Talvez tenha sido mesmo, na época em que os prisioneiros de Ushuaia o construíram (fim do século 19) para buscar madeira pra construir a cidade. Mas em 1949 o trem foi destruído por um TERREMOTO e só foi recuperado parcialmente em 1994, quando um ricaço reconstruiu 7km dos 25km originais e o negócio se transformou num caça-turistas. Não me entendam mal: o trajeto do trem é magnifíco - montanhas nevadas banhadas pelo sol, campos desmatados, bosques, cavalos extremamente peludos, riachos - e a história dele é genial. Mas durante toda a viagem fica rodando uma fita em trocentas línguas como um guia dos infernos em alto-falantes dentro do trem, e dá pra notar as partes do trajeto que são bem cuidadinhas pra impressionar os tiozinhos da Escandinávia ou do Japão que vão pra lá. Essa narração que fica rolando é apavorante e ela chega às raias de arruinar toda a experiência. A mulher que narra os trechos em português é minha inimiga, seja quem for.

Quanto ao Parque Nacional da Terra do Fogo, é um lugar tão ou mais lindo quanto o trajeto do trem - não, é mais lindo com certeza - e tive a sorte de pagar uma excursão com um guia bacana que não enchia o saco de quem se afastava para perambular sozinho, então aproiveitei bem (embora as histórias do cara fossem boas - por exemplo, a história dos coelhos, que foram trazidos à Terra do Fogo por militares argentinos e obviamente se tornaram uma praga que começou a destruir tudo, então eles trouxeram o lobo cinzento ou algo parecido de algum outro lugar para ser predador do coelho, mas o lobo cinzento não gostava muito de coelho. Ele gostava de comer as aves em extinção da Terra do Fogo, que efetivamente se extingüiram ou quase. Então, em nova investida contra os coelhos, eles foram ao Brasil e trouxeram o vírus da MIXOMATOSE, que reduziu a população de coelhos de 20 milhões para 50 mil, mas eles ainda existem e detonam o Parque e não podem nem ser caçados porque... bem, estão infectados por mixomatose. Clap clap clap, militares argentinos). Passamos pelo Lago Roca - desbunde visual - e depois pela Baía Lapataia, que é simplesmente o lugar mais lindo que eu já vi. Lago, pastos, bosques com folhas marrons, rosas, vermelhas, verdes e laranjas e, ao redor, cadeias de montanhas nevadas. Quando chegamos lá, o céu parcialmente nublado se abriu e a luz do sol transformou o lugar em algo sobrenatural de tão lindo. Fiquei tão chocado que sentei num canto e a excursão quase foi embora sem mim.

Fiquei cansado pra cacete nesse dia. Mas quando cheguei no hotel tinha um recado pra mim: o trekking ao Cerro Medio ia sair, porque um casal se inscreveu e fechou o grupo. Eu tinha me inscrito nisso na quarta-feira, pensando em dar uma pernada mais violenta pra sentir a NATURALEZA de perto, se é que entendem. Uma caminhada de 6 horas que subia ao cume de uma montanha nos arredores de Ushuaia. Quando recebi o recado, fiquei meio em dúvida. Eu estava cansado demais, e o sininho da INDIADA tava tocando na minha cabeça. Mas outro sininho tocava ao mesmo tempo, o sininho da EXPERIÊNCIA IMPERDÍVEL À VISTA. Resolvi escutar o segundo, fui à agência e paguei a excursão. Descobri que eu ia precisar de traje completo para neve, sob pena de simplesmente congelar no meio do caminho. E eu não tinha nada. Após negociações com o guia para me emprestar botas e uma campera (casaco) impermeável, fui a uma loja e torrei uma grana numa calça impermeável e numa blusa antitérmica. Fui dormir sentindo a dor da facada na minha conta corrente, mas resolvi dar chance à aventura antes de me arrepender.

Minhas melhores expectativas não chegariam nem perto do que realmente aconteceu. A subida ao cume do Cerro Medio, uma montanha nevada linda de 850m de altura que fica logo atrás de Ushuaia, foi uma das coisas mais sensacionais que fiz na vida. Começamos - eu, mais um casal, uma dupla de amigas e o guia - cruzando uma trilha de alguns quilômetros no meio de um bosque. Uns 30 ou 40 cm de neve se acumulavam pelo caminho e a vegetação ia se transformando a cada 100 ou 200m de altura: primeiro árvores altas e retas, depois outras de tronco mais curto e retorcido, com as folhas coloridas de marrom, vermelho, laranja e amarelo. Depois nada: só neve e pedras num terreno cada vez mais inclinado que ia se infiltrando no meio das montanhas que, de longe, lá da cidade, pareciam simplesmente inatingíveis. A neve tinha caído recentemente e estava funda e fofa; a perna chegava a afundar nela até a coxa. Eu, que nunca tinha visto neve, fiquei de queixo caído. A textura da neve fofa é como a de uma mousse, um veludo gelado tridimensional que se enrijece ao menor toque. E os paredões de pedra e neve ao redor. E o cume do Cerro Medio à vista, parecendo alto e íngreme demais para chegar a pé. Mas dava pra chegar, e nem era tão difícil, apesar de cansativo pra caramba. Foram mais de três horas pra subir. Lá em cima, uma visão panorâmica de toda a baía de Ushuaia, Canal Beagle, a pontinha da Cordilheira dos Andes, Parque Nacional - enfim, a Terra do Fogo. Embasbacante. O dia estava lindo, ensolarado com poucas nuvens, um frio forte mas tolerável, que só incomodava nos pés, que mesmo dentro da bota sofriam com a umidade do suor e ficavam dormentes quando eu parava de caminhar por uns 30 segundos. No todo, a sensação sublime de estar no alto de uma montanha como essas que se vê em filmes de alpinismo - não tão alta, mas com aparência de ser muito mais alta do que era. Alta o suficiente.

Durante todo o trekking, fomos acompanhados por um cachorro que surgiu do nada ao estacionarmos a van na entrada do bosque e nos seguiu por todo o trajeto até o cume e de volta. Era um pastor alemão que mais parecia um urso, com pêlos grossos e longos, adaptado ao frio. Era brincalhão e meio maluco, e por algum motivo resolveu ir conosco. Chamá-lo-ei de "el pérro", que era como as gurias do grupo se referiam a ele. El pérro tinha sido claramente atropelado há alguns dias, porque tinha feridas enormes semi-cicatrizadas nas duas pernas traseiras. Mesmo assim, corria pela neve com desenvoltura, às vezes se afundando até o focinho para emergir da brancura logo depois, ofegando como uma locomotiva. Ia sempre um pouco à frente, como batedor, talvez convencido de que estava nos protegendo. Adorava buscar gravetos arremessados. Ficava o tempo todo agarrando pedaços de pau com a boca a trazendo a nós. O problema é que ele não se contentava com qualquer graveto. Pedaços de pau pesando menos de dois quilos eram ignorados pela besta; ele os descartava e escolhia outro, em geral uma tora de mais de um metro que mal conseguia arrasatar com os dentes. Eram pedaços de madeiras grandes e pesados demais para serem arremessados. Vendo que não estávamos à altura de seu padrão de selvageria, ele se punha a roer e mordiscar os galhos até não sobrar nada. Fazia isso com tal empenho que sua boca sangrava em profusão, mas el pérro parecia não ligar. Mascar troncos era um de seus passatempos favoritos. Durante todo o trajeto, o cachorro conseguiu se machucar de maneiras diversas. Na verdade, ele foi sangrando durante boa parte do caminho, deixando marcar vermelhas na neve. Tentávamos descobrir como ele tinha se machucado, mas era impossível. Entre uma demonstração espontânea de selvageria canina e outra, ele se aproximava e mendigava carinhos, no que era prontamente atendido. Se afeiçoou especialmente a mim - vide foto. E assim foi durante toda a caminha de seis horas de duração. Houve um trecho mais íngreme da subida, onde a neve era muito profunda, em que el pérro se cansou e simplesmente empacava na frente da gente. Era preciso empurrá-lo ou dar uns tapas em sua ancas para convencê-lo a seguir. Achamos que el pérro ia desistir e estávamos com pena dele, mas ele prosseguiu e num dado momento, perto do cume, depois de comer uns bocados de neve, pareceu recuperar as energias e não empacou mais. No cume, demos uns pedaços de pão pra ele.

Na descida da montanha, o guia disse que a neve profunda nos permitiria tomar um atalho. O atalho era descer por uma encosta muito íngreme da montanha, impossível de subir a pé, mas descer... era a coisa mais divertida do mundo. Destrambelhamos aos saltos e escorregões pela neve, tropeçando e afundando como abobados. Lembrei do que a Tainá tinha me contado sobre a neve: ela nos transforma em crianças. É a verdade. Estávamos todos, o guia incluído, rindo à toa, jogando bolas de neve na nuca um do outro, deslizando de bunda e batendo corrida com el pérro, que tinha a manha de deslizar de peito na neve e nos atropelava sem aviso com seus 30 ou 40 quilos de disposição lupina.

Até agora, estou com dores horrendas na coxas e na panturrilha. Tenho dezenas de fotos, e algumas estão em anexo.

abraços,

DG









Monday, April 23, 2007

Diário Porteño 1

Estou faz apenas 5 dias em Buenos Aires mas parece que faz um mês que cheguei. Estou adorando a cidade, e sinto falta apenas de um fator de estranheza que aposto que está sendo primordial na experiência de nosso amigo JP em Tóquio. Buenos Aires é muito parecida com Porto Alegre, em muitos sentidos. O clima, a estrutura da região central, a presença do rio, a comida, o bairrismo, o fanatismo futebolístico. Mas ao mesmo tempo tudo é diferente: maior, mais amplo, mais movimentado. As mulheres se vestem com muito mais classe; os lugares chiques são chiques com propriedade, nunca com afetação; os prédios são mais antigos, mais imponentes, mais belos. A desorganização é maior. A burocracia é maior. O sistema telefônico é infernal, confuso, injusto, desonesto. Os táxis são baratos. O esquerdismo político é maior. Mas no fundo, lá no fundo, a sensação para quem morou quase toda a vida em Porto Alegre é estranhamente familiar. A língua também não é barreira: meu portunhol é compreendido e cada dia ganha mais ênfase na sílaba "nhol". De certa forma, me sinto em casa desde que cheguei. Meu maior choque cultural até agora foi receber um beijinho no rosto de um porteño a quem fui apresentado. Um verdadeiro defloramento homofacial. É costume entre os homens porteños cumprimentarem-se com um beijo meio de lado no rosto. Bárbaros.

A viagem foi tranqüila, mas logo na chegada tomei um susto: achei que tinha perdido parte do dinheiro para pagar o apartamento. Já estava entrando num acordo com o cara da imobiliária e o proprietário, pra pagar uma parte depois, quando achei o resto da grana no meio de uns papéis da minha mochila (estranho, porque eu tinha guardado o dinheiro numa pochete daquelas que ficam dentro da calça). Depois outro problema: a internet não funcionava. Levaram 3 dias pra consertar, mas consertaram.

O proprietário do apartamento é um personagem: velhinho de 87 anos, polonês, veio para a Argentina com o pai em 1939, com 25 dólares. Casou aqui, começou a fazer vestidos em casa com a mulher, e chegou a ter uma fábrica de pulôveres com 40 empregados. Ontem ele saiu para desanuviar com a mulher numas termas do interior da Argentina, porque os 3 filhos que moram no exterior não ligam pra ele faz tempo e isso o deixou estressado. Ótimo velhinho, parece ter no máximo 70 anos. Me mostrou o marca-passo no peito, com orgulho.

Cheguei com pressa de conhecer a cidade e em cinco dias fiz muita coisa. Caminhei por todas as regiões do enorme bairro de Palermo, onde fica meu apartamento. Palermo Hollywood, apesar da presença das produtoras de vídeo e cinema, é tradicional, tranqüilo e combina lojinhas antigas com cafés e restaurantes modernos e chiques. Foi aqui, perto de casa, que comi o primeiro bife de chorizo transcendente em solo argentino: a carne não se desmanchava; ela se despedaçava na boca. Palermo Soho é o sub-bairro mais agitado de todos, cheio de bares, livrarias, restaurantes, boutiques, turistas. Tudo muito agradável e de alto nível, mas ainda assim há um leve toque de experiência globalizada, com enormes placares da Heineken ou do Johnnie Walker, pubs irlandeses e hippies (que são absolutamente idênticos em todo o cosmos). Folhas outonais formam um carpete úmido e fofo sobre as calçadas. Até ontem, o calor era pantanoso, como o porto-alegrense. Os porteños estão apavorados com a temperatura desse início de outono e não param de falar em aquecimento global.

Percorri a pé o Microcentro, Recoleta, Puerto Madero, as avenidas Corrientes, Santa Fe, Córdoba... caminhei como se a vida dependesse disso. Fui a San Telmo a pé numa terça à noite e fui surpreendido por um temporal. O bairro ficou meio às escuras, iluminado por raios. Ficou na memória. Caminhei de manhã, de dia, à noite, de madrugada. Entrei em livrarias, galerias estranhas, cinemas, cafés antigos em que casais de meia-idade dançam tango no andar de cima e não toleram ser fotografados. Andei pelos Bosques de Palermo até as pernas bambearem. São parques bonitos e bem cuidados, embora a proximidade de avenidas movimentadas eliminem qualquer ilusão de bucolismo.

Um destaque: um amigo brasileiro que mora aqui me levou a um lugar chamado La Catedral de Almagro, em Almagro, perto do centro, na rua Sarmiento, altura do número 4000. Não há placa na frente. É um galpão enorme decorado com móveis antigos e memorabilia trash vagamente relacionada ao tango. No fim da tarde, dão aulas de tango. À noite, jovens dançam tango clássico e moderno, inclusive com versões meio new-age de gosto duvidosíssimo. Mas é lindo: o ambiente é impactante, escuro. No alto, um coração vermelho-vivo feito de tecido e arame. Numa das paredes, um sarcófago de vidro com uma fotografia em tamanho quase real de Carlos Gardel sorrindo.

Passei a madrugada de ontem e quase todo o dia de hoje armando uma viagem para Ushuaia, onde está acontecendo a Bienal del Fin del Mundo. Vou pra lá na semana que vem. Comprar passagens pela Aerolineas Argentinas, para um estrangeiro, pode ser uma experiência tortuosa e frustrante. Mas consegui. Vou ficar no Hostal Malvinas. Só tenho medo de não voltar.